Aprenda com o cinema

Publicado: 28/04/2006 em Artigos

Por RENATO MENDES
Artigo publicado na revista Você S/A – Edição 71, junho 2004

Você S/A

Quando o assunto é gestão de projetos, os bastidores do cinema brasileiro dão uma aula de planejamento e execução

Faltou apenas Cidade de Deus ganhar um Oscar para coroar o brilhante momento que atravessa o cinema brasileiro. Em 2003, 30 longa-metragens nacionais foram lançados e três deles figuraram entre os dez mais assistidos do ano. Apesar da recessão econômica, o público de filme nacional cresceu cerca de 200%. De acordo com a Filme B, empresa especializada nesse mercado, um em cada quatro brasileiros que foram ao cinema em 2003 preferiu a produção local. Neste momento, 190 filmes estão em andamento. O sucesso do cinema brasileiro é resultado da profissionalização do setor. Roteiristas, produtores, diretores, atores e até especialistas em marketing fazem parte de uma cadeia de planejamento, execução e logística altamente especializada.

Esses profissionais descobriram na raça que a elaboração de um filme nada mais é do que a execução bem-sucedida de um projeto. Dessa perspectiva, a maneira como se faz um filme pode trazer importantes lições para qualquer um que lide no dia-a-dia com gestão de projetos. Tanto no set de filmagem como no escritório, a chave de todo o sucesso está no planejamento. “As pessoas às vezes passam mais tempo na execução do que planejando, quando deveria ser o contrário”, diz André Barcaui, diretor de desenvolvimento de negócios da ESI International, consultoria voltada para gestão de projetos, com sede no Rio de Janeiro. Uma pesquisa da seção carioca do Project Management Institute (PMI) em parceria com a consultoria Deloitte Touche Tohmatsu mostra que, para 72% delas, o problema mais comum na gestão de um projeto é o não-cumprimento do prazo. A causa é um planejamento malfeito.

Para entender como funciona a produção de um filme, siga o roteiro abaixo. Apague as luzes, agarre a pipoca e acomode-se na cadeira. O espetáculo vai começar.

O início de tudo
O primeiro passo na elaboração de um filme é decidir que história será contada. Não existe uma regra de como ela nasce. O Caminho das Nuvens (2003), por exemplo, surgiu de uma matéria jornalística. A saga do homem que viaja de Santa Rita (PB) ao Rio de Janeiro atrás de um emprego, com toda a família montada em bicicletas, realmente aconteceu! “Vimos a reportagem no Fantástico, e o diretor Vicente Amorim decidiu filmá-la”, diz Marcelo Santiago, produtor associado do filme (leia sua trajetória na pág. 26). Quando a história foi para o papel, nasceu o roteiro. É comum que o texto, um verdadeiro guia com diálogos, marcações técnicas e indicações de interpretação para os atores, seja reescrito dez vezes. O processo leva de seis meses a um ano. Só depois dele é iniciado o planejamento estratégico do filme. Em O Caminho nas Nuvens, os responsáveis definiram que esse seria um drama com mensagem positiva, voltado para o público adulto. Elaborou-se também o orçamento, o cronograma e onde seriam as locações da filmagem. Na formação do elenco, foram escolhidos os atores globais Wagner Moura e Cláudia Abreu. De posse de um roteiro bem estruturado e com um elenco forte, a produtora carioca LC Barreto apostou suas fichas no filme. Era um lançamento estratégico para a produtora em 2003 — e vingou. Foi visto por 450 000 pessoas.

E você com isso? No mundo empresarial, seja qual for o projeto, é importante gastar o tempo que for necessário esmiuçando, ou seja, planejando todas as nuances da execução. “Uma mudança de prioridade no meio do caminho pode ser desastrosa”, diz Luis César Menezes, diretor de projetos da Síntese Consultoria, de São Paulo. “Além do dinheiro que se perde, toda a equipe sai frustrada.”

Jogo de cintura e networking
Com roteiro e estratégia prontos, o próximo passo é captar recursos. As empresas são as principais financiadoras do cinema nacional graças às leis de incentivo. Mas não pense que é fácil captar. Aqui começam as cenas mais ríspidas desse filme e não há espaço para dublê. Amizade com empresários, contatos no governo, nomes fortes por trás das câmeras e famosos no elenco, tudo pesa nesse momento — até mesmo levar a atriz principal para as reuniões. O sucesso nessa hora definirá a magnitude do filme. Em Bicho de Sete Cabeças (2000), sem ter conseguido captar o montante desejado, os irmãos Fabiano e Caio Gullane (veja, acima, sua trajetória) adequaram a produção ao 1,5 milhão de reais obtidos. Para tanto, dialogaram com o roteirista Luís Bolognesi, que manteve a história original, mas mexeu nas locações, tornando-as menos suntuosas. Ao longo da filmagem, os produtores conversam constantemente com representantes das empresas investidoras. Em alguns casos, há reuniões semanais para acompanhar de perto como o dinheiro está sendo gasto. Comenta-se que o patrocinador interfere até na escolha do elenco, dependendo do filme. “Estourar o orçamento é a morte”, diz Leonardo Monteiro de Barros, sócio-diretor da Conspiração Filmes.

E você com isso? As variáveis custo, prazo e qualidade se relacionam diretamente em um projeto. O gestor sem dinheiro pode pedir mais tempo, oferecer um trabalho com qualidade inferior ou segurar tudo, prometer o mundo e ver no que dá. Como não há milagres, é melhor ajustar o projeto à realidade, ser honesto e não prometer o que não se pode entregar.

Nada pode dar errado
Com a verba garantida, o passo seguinte no mundo do cinema é a produção do filme. Nessa fase, elabora-se o cronograma das filmagens. É um processo longo, que dura cerca de oito semanas. O planejamento é importante do ponto de vista financeiro porque um erro aqui se reflete em todo o filme. Outra parte importante é a formação da equipe. Em geral, todos os técnicos são contratados por um prazo determinado. Durante as filmagens, o time no set pode passar de cem pessoas. Além do diretor e produtor, há técnicos de som e de luz, maquiadores, figurinistas e por aí vai. Só os principais atores são definidos com antecedência. Mas nem isso tira a dificuldade da missão. O casting de um filme é trabalho de risco devido à vaidade que existe no meio. Alguns atores dificultam a vida dos produtores com demandas que beiram o absurdo. Um famoso ator global exigiu um camarim exclusivo numa filmagem no sertão nordestino.

E você com isso? Ao formar um time para um projeto, atenção na hora da escolha dos profissionais, que se dividirão entre a nova tarefa e as responsabilidades cotidianas. As interrupções no ritmo do trabalho são apontadas como causa do fracasso de projetos por 71% das empresas, segundo a pesquisa PMI/Deloitte. A saída seria focar unicamente no projeto, mas isso é cada vez mais difícil. A vaidade também não é exclusividade do cinema. Estrelas às vezes são ótimos profissionais, mas podem comprometer o conjunto da obra por falta de espírito de equipe. O segredo é saber medir o quanto você precisa da estrela – ou se ela pode ser substituída.

Luzes, câmera e ação!
A filmagem é a hora de colocar em prática o que se planejou. Quando diretor e atores pisam no set, nada pode dar errado. O foco é obter a melhor interpretação. Para que isso seja possível, o set de filmagem tem uma disciplina quase militar. Trabalha-se 10 horas por dia, seis dias por semana. (Uma curiosidade: o modelo de remuneração é semanal, assim como são contados os prazos de duração). Para que não haja erro, existe a chamada “Ordem do Dia”, que detalha quais cenas serão filmadas, em que horário e quem participará. Ou seja, fica muito evidente (e desagradável) quando alguém erra ou se atrasa. A pressão é grande. Por isso, é cada vez mais comum que sessões de massagem e ioga sejam organizadas dentro do set. O desgaste é tamanho que as horas extras são evitadas e o período do almoço é sagrado.

E você com isso? A disciplina é importantíssima na execução de um projeto. O rendimento da equipe pode cair quando submetida a períodos longos de confinamento e estresse. Esportes ou mesmo uma sessão de massagem ajudam a relaxar. Além disso, é importante que se deixe claro quem é o responsável pelo projeto. Num set, é muito claro que o líder é o diretor.

Lidando com o imprevisto
Durante a filmagem, chuva e outras intempéries são um problema conhecido, mas sempre temido. Por isso, as cenas consideradas de risco têm sempre um plano B. Mas os imprevistos insistem em surpreender a todos. Em Lisbela e o Prisioneiro (2003), a produção sabia que a cena do duelo entre um boi e o ator Selton Mello não seria fácil. No roteiro, o rapaz domava o bicho a unha, derrubando-o pelos chifres. Mas o que fazer quando o aterrorizador boi é um bichinho subnutrido e, o pior, não tem chifres? “O que ia fazer? Pedir fotos dos bois para escolher o melhor? Apenas pedi um boi para a filmagem”, diz, aos risos, Paula Lavigne, que trabalhou na produção do filme (leia sua trajetória na pág. 23). A solução foi escolher ângulos mais fechados, que o tornassem mais aterrorizador. O boi também ganhou um par de chifres, falso.

Outro apuro viveu a produção de Bicho de Sete Cabeças quando filmou a cena em que o personagem Neto se encontra com o pai para ir a um estádio de futebol. Local da filmagem: bairro da Casa Verde, em São Paulo. Horário: 6 horas da manhã. Tudo sob controle? Não se Neto for interpretado pelo galã Rodrigo Santoro. O boato de que ele estaria na vizinhança naquele dia levou centenas de pessoas ao local. Dividiam-se, basicamente, em dois grupos: as adolescentes que gritavam por Santoro e os marmanjos que gritavam contra Santoro. O barulho era ensurdecedor. A produção pedia silêncio e era bombardeada com palavrões. A saída encontrada foi a negociação. Para as moças, a promessa de uma sessão de autógrafos; para os rapazes, cerveja de graça no final da filmagem.

E você com isso? “A gestão de risco pressupõe avaliar todos os contratempos de antemão e preparar as alternativas”, diz Américo Pinto, diretor da Dinsmore Associates, consultoria especializada em gestão de projetos. Entretanto, não é possível prever tudo. Uma crise internacional pode fazer o dólar disparar e o custo do projeto triplicar. Flexibilidade é a palavra de ordem.

Finalização
Concluída a filmagem, a equipe volta a encolher e entra em cena o pessoal da finalização. A turma que edita o filme, põe efeitos especiais, trata as imagens e as sincroniza com as falas dos atores e com a trilha sonora, entre outras coisas. Daí pra frente, o filme vira um produto qualquer. Cabe à equipe de marketing divulgá-lo e colocá-lo em boas salas. Planejamento, organização, disciplina, o cinema tem muito a ensinar. Na tela e fora dela.

Menina superpoderosa
Há tempos que Paula Lavigne, de 34 anos, não é mais “aquela atriz da novela das 8” ou apenas a “mulher de Caetano Veloso”. Desde que entrou no ramo da música, ela é uma empresária. E que empresária! O pensamento rápido e o jeito de quem não tem tempo a perder lhe renderam, no mercado, a fama de furacão. “Sou muito profissional”, diz. Com esse pique, Paula chegou ao cinema com a Natasha Filmes em 1996, com Tieta do Agreste. Pragmática e realista, encara a experiência cinematográfica como um negócio. Estreou pra valer como produtora em Lisbela e o Prisioneiro, assistido por mais de 3 milhões de pessoas. Seu mais recente trabalho é Benjamim, baseado na obra de Chico Buarque. A moça não está para brincadeira — e já descobriu que, quando o assunto é cinema, um tiro bem dado é sinônimo de dinheiro no caixa. Com Lisbela, ela acertou.

Tudo em familia
A infância dos irmãos Fabiano, de 33 anos, e Caio Gullane, de 31, foi abreviada pela morte do pai, 20 anos atrás. Por causa disso, eles começaram a trabalhar muito cedo. Na adolescência, Fabiano era técnico de som, e Caio, animador de festas infantis. Mas talvez a conseqüência mais perceptível dessa perda seja outra: a proximidade entre os dois, apontada como o segredo do sucesso da Gullane Filmes, produtora com sede em São Paulo. “A diferença aqui é o entendimento entre os cabeças”, diz Caio, que, assim como o irmão, fez faculdade de cinema na Faap. Com apenas dez anos de existência, a Gullane tem no currículo a participação na produção de filmes como Carandiru e Bicho de Sete Cabeças. O negócio vai tão bem que a paixão virou ganha-pão. “Vivemos de cinema”, garante Fabiano. Jovens e profissionais, os irmãos Gullane são a cara da nova geração do cinema brasileiro.

Meu primeiro longa
Marcelo Santiago, de 42 anos, pode reclamar de tudo, menos de levar uma vida monótona. Nascido em Belo Horizonte, ainda jovem foi para São Paulo tentar a carreira de ator. “Levava uma vida dura, era uma carreira muito instável”, diz. Cansado da cidade e seduzido pelo mundo do cinema, decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro. Lá, descobriu que “não era um bom ator”, graduou-se em cinema pela Universidade Federal Fluminense e, em 1993, começou a trabalhar na LC Barreto, a mais tradicional produtora cinematográfica do país. De lá para cá, atuou na produção de O Caminho das Nuvens, foi diretor assistente de A Paixão de Jacobina e, atualmente, comanda seu vôo mais ambicioso: dirige seu primeiro longa, Balé da Utopia. Santiago, que começa a brilhar no cenário carioca, quer muito mais. Um diretor de primeira linha chega a ganhar 150 000 reais para dirigir um filme no Brasil.

As lições da telona

  • Preparação: É melhor gastar seu tempo planejando do que errar na execução.  
  • Orçamento: A falta de dinheiro é um problema recorrente. Mesmo sob pressão, não prometa o que não poderá cumprir.
  • Equipe: Evite trabalhar com funcionários que se dividirão entre o projeto e as atividades cotidianas.
  • Rotina: Disciplina é fundamental, mas atenção aos exageros. Relaxar é essencial para equipes sob constante pressão.
  • Risco: Avalie os contratempos de antemão e prepare alternativas. Em situações inusitadas, a palavra de ordem é flexibilidade.
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