O Ponto de Equilíbrio

Publicado: 16/07/2007 em Artigos

Por CAROLINA MEYER

Autor de cinco livros e 20 teses sobre competição, o pensador indiano C.K. Prahalad diz que o ambiente interno das empresas precisa ser menos competitivo e de maior cooperação

Fonte: EXAME – 17/05/2007

O indiano Coimbatore K. Prahalad revolucionou o mundo dos negócios ao lançar, em 2004, o livro A Fortuna na Base da Pirâmide. Sua tese – a de que as empresas deveriam voltar seu foco para as massas – transformou radicalmente a maneira de pensar de companhias como Unilever, Philips e IBM. Um dos mais conceituados professores da Universidade de Michigan, Prahalad está entre os maiores estudiosos do mundo do tema competição. Autor de cinco livros sobre o assunto (e de outros 20 artigos), ele lançou as bases da competição moderna com o ensaio The Core Competence of the Corporation, publicado em 1990. Nele, o autor indiano sustenta que as empresas devem centrar seus esforços somente nas áreas em que possuem vantagens competitivas. Com a morte de Peter Druker, Prahalad tornou-se, segundo a revista americana Business Week, a figura mais influente do mundo dos negócios. Sua obra mais recente, O Futuro da Competição, é citada com entusiasmo por executivos de empresas do porte de Microsoft, Philip Morris e Citigroup. Por telefone, Prahalad concedeu a seguinte entrevista a EXAME.

Em seus livros, o senhor diz que as empresas deveriam parar de se preocupar com a concorrência e prestar atenção nos próprios desafios. O senhor também diz que os funcionários precisam parar de competir uns com os outros e cooperar mais. Afinal, o senhor é contra a competição?
Toda empresa já nasce imbuída de um espírito competitivo. O desejo de ser único, de ser o melhor em seu setor é algo que está no DNA das companhias – é o que as define. Isso vale tanto para grandes corporações, como o Wal-Mart, quanto para novatos no mercado, como o YouTube. Todas elas surgem de uma busca insaciável para antecipar tendências de mercado – e ocupar nichos até então ignorados ou menosprezados por seus concorrentes. Há, naturalmente, empresas nas quais esse nível de competição é mais exacerbado. E isso é fabuloso. Certamente o grau de competitividade da Toyota foi uma das razões que impulsionaram a empresa a tornar-se a maior montadora do mundo. Não sou contra a competição, pelo contrário. Mas acho que o foco das empresas não pode estar na concorrência – mas naquilo que acontece dentro da companhia. É preciso buscar um ponto de equilíbrio.

E qual seria esse ponto?
As empresas precisam instigar em cada um de seus funcionários a vontade de crescer, mas de uma maneira construtiva. O Google é um ótimo exemplo disso. Seus dois fundadores, Larry Page e Sergei Brin, são extremamente competitivos. Mas foi a cultura de criação de valor que eles difundiram na empresa que fez do Google um sucesso retumbante. Lá, cada um dos funcionários está pessoalmente empenhado em desenvolver novos produtos e serviços. Ou seja, em gerar mais caixa para a companhia. Mas eles não fazem isso tentando comer o fígado de quem trabalha ao lado deles. Eles têm a perfeita noção de que a disputa se dá entre o Google e os outros – e não entre eles mesmos.

Como instigar os funcionários a adotar essa cultura?
Antes de mais nada, é preciso entender que não se trata simplesmente de instaurar uma cultura de competição, em que um quer – ou tem de querer – o lugar do outro. Trata-se de abrir espaço para que o funcionário atinja um alto grau de excelência pessoal e profissional. Qualquer pessoa gosta de ultrapassar os próprios limites, de chegar aonde ninguém chegou. O que vai motivá-la é justamente a possibilidade de se tornar um profissional mais completo, até para ser mais valorizado no trabalho. O maior desafio, na minha opinião, não é estimular as pessoas a competir, mas, sim, fazê-las cooperar.

Mas isso não é quase um paradoxo?
Não necessariamente. Competir é ótimo, mas não adianta ter um time vencedor se ele não trabalha também pelo progresso do todo. Não se pode esquecer que o foco é o crescimento da empresa, não do executivo. Cada vez mais as empresas têm atrelado o bônus de seus executivos ao desempenho da companhia, e não somente à performance pessoal. Mesmo os bancos de investimento, os mais competitivos e agressivos do mundo, estão começando a adotar essa prática. Isso não significa que desempenhos variados terão prêmios iguais, mas, sim, que as metas serão desdobradas, de uma maneira que a competição interna – e legítima – não atrapalhe os objetivos da companhia.

Na sua opinião, na hora de contratar um executivo, uma empresa deveria optar por uma pessoa talentosa mas pouco competitiva ou o contrário?
Em primeiro lugar, é importante diferenciar talento de qualificação. O primeiro é uma habilidade inata. O segundo tem a ver com diplomas, especialização, preparo. Pessoas talentosas dificilmente vão procurar grandes empresas para trabalhar. Via de regra, elas montam o próprio negócio. Steve Jobs, da Apple, é o melhor exemplo disso. Às empresas, restam os candidatos qualificados – e alguns deles são realmente muito bons. O problema é que essas empresas cada vez mais optam por escolher o profissional com base nessas credenciais e torcem para que ele seja competitivo. É uma opção pela segurança. O ideal é que fosse o contrário. As empresas deveriam procurar candidatos competitivos, com vontade de crescer e que possam adicionar valor ao negócio. As questões mais burocráticas deveriam ficar em segundo plano.

Existe uma relação direta entre talento e competitividade?
A princípio, talento não tem nada a ver com competição. Uma pessoa talentosa é aquela capaz de enxergar o que outras não vêem. E isso ocorre independentemente de quem está à sua volta. Bill Gates não criou a Microsoft porque estava competindo com alguém. Ele simplesmente enxergou uma oportunidade diferente para criar um negócio novo. No entanto, o ideal é unir as duas coisas. Ter talento é bom, mas é importante ter autoconfiança e muita persistência também.

Que tipo de características uma pessoa tem de ter para sobreviver num ambiente de alta competição?
Conseguir vencer num ambiente altamente competitivo requer mais do que conhecimento técnico. É preciso ter comprometimento – pessoal e profissional. Dedicar-se a determinada meta do princípio ao fim. A busca pela excelência consome muita energia e exige muito treino. É como se preparar para uma Olimpíada. O problema é que nem todo mundo possui equilíbrio suficiente para lidar com isso. Os Estados Unidos são um celeiro incrível de casos de pessoas que se sacrificaram a tal ponto que, no final, já não tinham família, esposa ou amigos. Em outras palavras, é preciso ter estômago para lidar com situações de extrema competitividade.

Uma pessoa habituada a um ambiente competitivo consegue vencer numa empresa de baixíssimo grau de competição?
Dificilmente. Não é uma questão de competência, mas de motivação. Essa pessoa ficará entediada em poucas semanas. Pessoas competitivas são movidas a desafios. É como um vício. Elas precisam ser instigadas o tempo todo.

Como funciona a mente dessas pessoas? Como elas lidam com a derrota, por exemplo?
Indivíduos altamente competitivos simplesmente não desistem. Para eles, a derrota é impensável. Se ela acontece – porque nem sempre é possível vencer, naturalmente -, seu desânimo ou desapontamento dura apenas algumas horas. Eles sempre acabam encontrando um jeito de fazer a coisa acontecer. São pessoas obstinadas e extremamente persistentes.

E qual é o limite dessa obstinação? Quando a competição começa a ser prejudicial?
Quando compromete a integridade do indivíduo. A busca incessante por resultados faz com que algumas pessoas simplesmente passem por cima de valores éticos. Em algumas empresas, isso geralmente se reflete na omissão ou distorção de dados, como foi o caso da Enron. Havia na empresa uma horda de executivos bem formados e extremamente competitivos. O resultado foi um desastre. Não porque a competição fosse maléfica – mas porque se tornou selvagem, completamente desprovida de limites.

O senhor acredita que todo CEO seja competitivo?
O conceito de competição é bastante amplo. Um executivo pode ser extremamente competitivo sem ostentar uma postura agressiva. Competir é, basicamente, querer virar o jogo a seu favor – coisa que todo executivo deseja para si mesmo ou para sua companhia.

Recentemente, executivos de grandes companhias, como Carly Fiorina (ex-HP) e Robert Nardelli (ex-Home Depot), sofreram reveses. A era do CEO competitivo acabou?
Absolutamente. Uma coisa é competir e mostrar seu valor. Outra, bem diferente, é ser competitivo a ponto de fazer qualquer coisa para ocultar suas falhas. O que ocorreu com esses executivos são casos isolados.

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