A outra janela

Publicado: 29/11/2007 em Artigos

Diretor de software da IBM no país, Marco Bravo, diz que a vocação brasileira é ser uma boutique de tecnologia.
 
Fonte: Bites – 23/11/2007

A conversa com o diretor de software da IBM Brasil, Marco Bravo, começa com um atraso de 30 minutos. Antes da conversa é necessário descobrir dentro do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, um ponto de venda de um cartão de zona azul para evitar uma multa num dia de sol. Quando a tarefa é cumprida e o almoço com o executivo começa bastam alguns minutos para uma unanimidade ser colocada em xeque: o sonho de transformar o Brasil numa nova Índia do mercado de tecnologia.

De maneira geral várias empresas nacionais de tecnologia compartilham com a idéia que poderão competir em pé de igualdade com companhias indianas que fecham em todo mundo milionários contratos de terceirização de tecnologia (outsourcing). É nesse ponto que a análise do executivo da IBM se apresenta reveladora. “Como vamos disputar com alguém que cobra US$ 1 por hora de trabalho? Deveríamos considerar outras opções”, afirma. O mais interessante nesse ponto de vista é que ele está completamente livre de qualquer percepção conformista. Bravo diz que a janela de oportunidade aberta pelos indianos há mais de dez, quando descobriram que poderiam prestar serviços de baixo custo para seus clientes, fica menor a cada dia. E será reduzida ainda com a entrada dos chineses nesse mercado.
 
E nessa época a situação das companhias brasileiras ficará mais delicada. Outsourcing, segundo Bravo, é algo que pode ser analisado pelo princípio de escala. Quanto mais gente desenvolvendo programas de computador mais barata é a hora cobrada por cada analista. Nesse ponto é fácil imaginar a capacidade da Índia com seu 1 bilhão de habitantes ou a China de gerar mão de obra para esses projetos.

E qual seria a opção? Novamente Marco Bravo, que entrou na IBM após a compra da Rational Software pela gigante da tecnologia, utiliza um argumento claro e direto. “Nossa chance está longe do enfretamento com a Índia”, afirma. O diretor da IBM diz que as boas oportunidades no mercado de software para as companhias brasileiras estão associadas a dois fatores. O primeiro, como já acontece em países como a Coréia do Sul, é investir em produtos de alto valor agregado. Esquecer o modelo Wal Mart e atuar como uma boutique de luxo no mercado de tecnologia. O segundo ponto é trabalhar dentro de uma que envolve descobrir modelos alternativos de negócios em tecnologias já existentes. Essa mistura de produtos pode fazer surgir novas oportunidades.
 
Mesmo parecendo óbvia essa análise não consegue angariar muitos seguidores. Ainda resiste a tese dentro e fora do governo de que o futuro das empresas nacionais está associada à competição com os indianos. A realidade mostra o contrário. Há muitos casos de êxito verde-amarelo na área de outsourcing, mas quem já está nesse jogo dificilmente conseguirá se transformar em algo semelhante a uma marca como a Wipro ou a TCS, ambas indianas cujo valor de mercado na bolsa já ultrapassou dezenas de bilhões de dólares.

E quando se fala desse ponto de vista contrário à unanimidade não significa pensar pequeno, mas entender o problema sob outro ponto de vista. E nesse aspecto, o Brasil nunca será a Índia. Deveria pensar em ser o Brasil.

Link: Bites

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