A saga da Expedição de Schackleton

Veja o vídeo sobre a história da Expedição de Schackleton.

Idioma: Inglês

Tempo: 1:34 

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Por MARCELO PEDREIRA

Baseado em “Endurance”, de Caroline Alexander – Companhia das Letras

Fonte: PMBK

Um navio completamente preso no mar congelado, à latitude de 74 graus sul e à mercê dos ventos e correntes que o levavam cada vez mais longe de seu porto de destino. Esse era apenas o prenúncio do que viria a se constituir a maior prova de superação humana que se tem registro na história.

“Está quase no fim… O navio não vai agüentar esta vida, comandante. É melhor se preparar, pois é só uma questão de tempo. Ainda pode levar meses, só algumas semanas, ou mesmo dias… mas o que o gelo prende, o gelo não larga mais”.

O calendário marcava 12 de julho de 1915. O navio em questão era o Endurance, uma embarcação de madeira idealmente aparelhada para enfrentar o gelo. As palavras eram de Sir Ernest Shackleton, um explorador que já havia participado de duas expedições anteriores à Antártida, e a cena era terrível: um navio completamente aprisionado, em meio ao mar congelado, à latitude de 74 graus sul, à mercê dos ventos e correntes que o levavam para cada vez mais longe de seu porto de destino.

A Expedição Imperial Transantártica tinha por objetivo atravessar o continente antártico a pé e de trenó. Para isso, o Endurance partiria da Ilha Geórgia do Sul, uma estação baleeira habitada por noruegueses, cruzaria o Círculo Polar Antártico, atravessaria o traiçoeiro Mar de Weddell e aportaria na Baía de Vahsel, de onde uma turma desembarcaria para a travessia por terra, até o Mar de Ross. Porém, as condições de navegação naquele ano estavam especialmente difíceis, com o banco de gelo estendendo-se muito mais ao norte do que jamais tinha sido registrado.

Momento de decisão
Shackleton, líder da expedição, foi aconselhado pelos baleeiros a esperar até que o verão austral estivesse mais adiantado e, assim, a estadia na ilha acabou durando um mês inteiro. Como as condições não melhoravam, os noruegueses sugeriram que a expedição fosse adiada para a estação propícia do ano seguinte. Mas, Shackleton sentiu que aquela seria sua última chance e decidiu partir na manhã de 5 de dezembro de 1914. Ele não poderia imaginar o que vinha pela frente…

Enfrentando condições totalmente adversas, o Endurance percorreu mais de 1.500 km antes de parar, a menos de 200 km de seu porto de destino. Ventos muito fortes de nordeste, que sopraram quase que ininterruptamente por seis dias seguidos, tinham comprimido o vasto banco de gelo espalhado no mar – o pack – contra a plataforma de gelo do continente antártico, aprisionando o navio em meio a sua massa. A temperatura de quase 15 graus negativos acabou transformando todo aquele banco de gelo numa massa única e contínua, que impulsionada pelas correntes do Mar de Weddell levavam o Endurance cada vez mais para o norte.

Apesar das tentativas de libertar o navio e encontrar fendas que levassem ao mar aberto, o Endurance permanecia preso no gelo e o verão chegava ao fim. No dia 24 de fevereiro, Shackleton deu ordens para que a rotina do navio cessasse e o destemido Endurance foi oficialmente transformado em estação de inverno. Não havia esperanças que o gelo se partisse antes da primavera.

Porém, submetido às terríveis pressões provocadas pelo movimento das placas de gelo, o navio começou a fazer água; no dia 21 de novembro de 1915, afundou. Os homens, que já o haviam abandonado, construíram um acampamento improvisado e a idéia agora era caminhar pela banquisa de gelo, carregando os três botes engatados, até atingirem uma abertura para o mar.

No mais temível oceano do planeta
Após duas tentativas frustradas, chegou-se à conclusão de que a tarefa era impossível. Não restava outra alternativa senão esperar que a banquisa se partisse para poder jogar os botes ao mar. Uma espera que demorou 6 longos meses. A caça era escassa e os cães tiveram de ser sacrificados. As tempestades e a umidade constante transformaram a vida desses homens num verdadeiro inferno branco.

Em 9 de abril o gelo finalmente se abriu e Shackleton deu a ordem para lançar os barcos. Os 28 homens tinham ficado 15 meses à deriva numa banquisa de gelo, comendo e dormindo mal, mas suas verdadeiras provações mal haviam começado. Divididos em três pequenos botes, suportaram sete dias apavorantes em barcos abertos, no início do inverno antártico, em pleno Atlântico Sul, até chegarem à ilha Elephant em 15 de abril. Há 497 dias aqueles homens não pisavam em terra firme.

A ilha Elephant estava longe de ser um paraíso: era um lugar inóspito e hostil, além de estar completamente fora de qualquer rota de algum navio baleeiro. Não havia escolha: era preciso tentar chegar até a estação baleeira da Geórgia do Sul. Quando Shackleton comunicou no dia 20 de abril sua decisão de levar 6 homens para alcançá-la a barco, todos os experimentados oficiais e marinheiros sabiam o que enfrentariam.

A ilha da Geórgia do Sul ficava a cerca de 1.300 km de distância, mais de dez vezes a distância que tinham acabado de percorrer. Para alcançá-la, aquele bote aberto de 22 pés precisaria atravessar o mais temível trecho de oceano do planeta, em pleno inverno. Iriam encontrar ventos de 130 km/h e ondas imensas, os notórios vagalhões do cabo Horn, medindo até 20 metros da base à crista.

Foram 17 dias sob as mais terríveis condições. Enfrentaram um furacão que pôs a pique um vapor de quinhentas toneladas com todos os homens a bordo. Porém, ao longo dessa provação, os seis homens, juntos, mantiveram uma rotina de bordo, uma estrutura de comando, um revezamento de tarefas que permitiu a superação das circunstâncias mais adversas que um navegador pode enfrentar.

Chegaram à Ilha Geórgia do Sul em 10 de maio de 1915 e precisaram enfrentar o interior da inexplorada ilha, em meio a um relevo sinuoso, escarpado e pontuado por geleiras gigantescas. Em 20 de maio, após 36 horas de caminhada, chegaram à estação baleeira. Estavam salvos, mas para Shackleton só havia um pensamento: resgatar os homens que ficaram na Ilha Elephant.

Devido à I Guerra Mundial, a Inglaterra não dispunha de navios para o resgate. Shackleton percorreu então Argentina, Uruguai e Chile, numa luta desesperada contra o tempo para encontrar um navio que suportasse a viagem de volta.

O resgate
Três meses depois, a bordo de um pequeno rebocador cedido pelo governo chileno, Shackleton chegou à ilha onde deixou seus companheiros. Ele era reconhecido por sua dedicação e preocupação com seus comandados. No decorrer da tragédia, deu inúmeros exemplos de desprendimento e companheirismo. Para ele, seria imperdoável encontrar algum de seus homens morto.

Ao avistar a Ilha Elephant, Shackleton pegou seu binóculo e contou as silhuetas humanas que se amontoavam na praia: 22. “Ele guardou o binóculo na caixa e virou-se para mim, com o rosto exprimindo mais emoção do que eu jamais tinha visto”, escreveu o comandante do navio. Todos os 28 homens voltaram a salvo para suas casas. Inacreditavelmente, quando tempos mais tarde Shackleton convocou todos para uma nova expedição à Antártida, ninguém recusou.

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