A academia de costas para a sociedade

Por Carlos Nepomuceno

A academia está dentro da sociedade e só faz sentido quando se relaciona com ela de forma intensa. Isolada (como prefere ficar) é apenas mais uma fonte de despesas e barulho.

Fonte: Webinsider – 23/01/2009

Nós não somos estudantes de uma matéria qualquer, mas estudantes de problemas – Karl Popper.

Toda a Ciência tem um ponto de partida.

Nasce da necessidade de resolver um problema humano. Uma impossibilidade que nos leva a estudar determinado assunto.

A partir desse ponto, inventamos equipamentos (telescópios, microscópios, máquinas de raio-x) que nos permitam detalhar os objetos.

Ou inventamos ferramental teórico que nos permita compreender o que se passa e o que provavelmente acontecerá. E como podemos nos preparar para conviver com estes fatos.

Nessa linha, existem objetos inacessíveis às tecnologias atuais (o material do solo de outros planetas, por exemplo) e fenômenos novos como a Aids ou a internet, que abrem novos campos de estudo.

O problema original, entretanto, se desdobra em diversos outros e nesse caminho é normal que o problema a ser resolvido torne-se secundário em um processo virtuoso.

Existe também, o que é mais comum, que o problema fique cada vez mais distante e, por diversos fatores burocratizantes, a própria Ciência se transforme de solução em problema.

O cachorro que deveria saber onde está o rabo, virou o rabo atrás do cachorro.

Burocratiza-se a Ciência, que passa a ser um “Ministério”, com seus carimbos, burocratas, normas, regras e leis, que supostamente defendem a inovação mas muitas vezes acabam tendo o efeito contrário.

Passam anos discutindo os detalhes, sem ir ao âmago da questão, em um processo claro de neurose científica.

Me alinho com Edgar Morin quando no livro Cabeça bem-feita defende uma nova cultura científica, que resgate o sentido de orientação para a condição humana.

Não há nada pior do que uma academia fechada nela mesma, com a cabeça cheia sem conseguir articular aquele conjunto de autores de tal forma a contribuir de alguma forma com a sociedade.

A academia está dentro da sociedade e só faz sentido quando se relaciona com ela de forma intensa. Isolada (como prefere ficar) é apenas mais uma fonte de despesas e barulho.

Os problemas são uma dádiva para quem estuda. Eles ajudam a organizar o pensamento, dão um sentido de realidade às nossas viagens e nos fazem situar determinado conceito no geral das coisas, evitando a “acumulação estéril”, definida assim por Morin:

“Onde o saber é acumulado, empilhado, e não dispõe de um princípio de seleção e organização que lhe dê sentido”.

Morin defende, assim, uma educação e, por sua vez, uma Ciência que nos oriente para os problemas fundamentais de nossa própria condição e de nossa época.

O isolamento da maior parte de nossa academia, perdida nos seus falsos problemas egóicos, cria-nos ruídos. Quem deveria ajudar muitas vezes, atrapalha.

É um pouco o que diz Marcos Cavalcanti, quando defende um novo sentido para as pesquisas acadêmicas com a sua sensacional e emblemática estória do Ronco do Boi, sobre a incapacidade do sistema brasileiro de ciência e tecnologia de transformar conhecimento em valor.

Um pesquisador que estudava o ronco do boi, quando perguntado sobre o motivo da pesquisa, simplesmente respondeu: “porque eu estou a fim”.

Cavalcanti defende que “a universidade não pode continuar de costas para a sociedade, pesquisando só o que interessa aos pesquisadores”.

Eu complemento dizendo que a universidade pode criar sim problemas, está ali para isso, mas que ajude a sociedade a resolver os seus. E não criar uns tantos falsos e estéreis a seu bel prazer, financiada pela sociedade.

A arte está em fazer com que ela se aproxime da realidade com sabedoria e liberdade em um processo inovador e criativo, envolvendo todos os atores, não apenas os “de dentro”.

É preciso resgatar a ideia original da academia: um conjunto de estudiosos empenhados em melhorar a vida sobre a face da terra, reduzindo, ao máximo, o que é estudo do próprio umbigo. Concordas?

Carlos Nepomuceno nepomuceno@pontonet.com.br – é professor, pesquisador e co-autor do livro Conhecimento em Rede (Editora Campus), coordenador do ICO, Instituto de Inteligência Coletiva e diretor da Pontonet. Mais dele no blog CNepomuceno e no Twitter.

Link: Webinsider

5 comentários

  1. Críssia · abril 14, 2009

    Parabéns Carlos Nepomuceno pela ousadia de expressar o que, de muito, se é velado em nossa realidade.

    Transcrevi seu artigo em meu blog justamente por ir de encontro ao que sempre pensei, e infelizmente, algumas “muitas” vezes presenciei.

    Que estas sementes lançadas venham despertar estas mentes acorrentadas pela sedutora e irresistível vaidade.

    Contudo, acho importante salientar ainda a visão da sociedade de “paternalismo”. Estamos “gerando emprego” pra quem quer se dedicar à pesquisa. Como se fosse um favor. Infelizmente, é extremamente desestimulante, e por vezes inviáveis, viver de bolsas de pesquisas. Há uma falta de dignidade e valorização da área por parte da sociedade.

    Acredito que há uma necessidade de trabalhar a importância de ambos para a geração de frutos em conjunto.

    Um abço!

  2. Fabiano de Andrade · abril 28, 2009

    Prezado Carlos Nepomuceno,

    É com imenso pesar que vejo sendo propagada tal idéia de que os cientistas não passam de um grupo de “intelectuais” que se fecham em seus laboratórios enquanto a pobre sociedade “ansiosa” por seus serviços ficam a mercê da boa vontade algum deles. Que eles se fecham em seus laboratórios eu até concordo, mas quanto a segunda parte definitivamente, não!

    Antes de falar que os pesquisadores realizam suas pesquisas ao seu bel prazer, sem procurar repostas para os problemas da sociedade ou pelo menos mantendo tais respostas distantes, é importante salientar que hoje em dia a cobrança por resultados é constante. Como biólogo, mais precisamente ictiólogo, é comum termos que incluir as chamadas “espécies de interesse comercial” em nossos estudos para que esses tenham realmente algum valor e principalmente, financiamento. Por que? As espécies que não são de interesse do Homem não precisam ser conservadas? Ora, se sim, essa seria uma grande falácia, pois estaríamos enfatizando apenas um dos valores apregoados pela Biologia da Conservação, o Valor Econômico Direto, porém indiretamente tal espécie tem um papel crucial em sua comunidade. Lembra-se dos níveis tróficos? Isso é apresentado em Biologia no nível médio. E mesmo que essa não seja uma boa justificativa e não vislumbre-se em tal valor uma importância para a sociedade, temos ainda o chamado Valor de Opção, afinal de contas, hoje tais espécies podem não ter uma função específica, porém no futuro podem passar a ter.
    Portanto, hoje vemos que ao contrário do dito, a pesquisa básica ou fundamental, como queira, está sim, lamentavelmente relegada ao patinho feio da comunidade científica, pois ela “nada tem para nos dar em troca”. Mas seria isso verdade?

    Vamos fazer um rápido exercício. Será que se algum governante do século XVIX tivesse pedido aos seus conselheiros que inventassem um equipamento que permitisse ver imagens ou simplesmente ouvir pessoas que estão a longas distâncias esses teriam criado o rádio e a televisão? É improvável que qualquer um deles imaginasse em questões de poucos anos todo o caminho percorrido por Ampère, Biot, Oersted, Faraday e Maxwell. Caminho esse criado pela CURIOSIDADE deles. Baseado nos experimentos sem “objetividade” de Maxwell, Heinrich Hertz descobriu um novo tipo de radiação, as ondas de rádio. 13 anos depois Guglielmino Marconi, na Itália, já usava tais ondas para se comunicar com o outro lado do Oceano Atlântico. Em contrapartida, os meios de comunicação, até onde eu sei, nunca apresentaram uma minissérie em homenagem ao seu benfeitor e fundador, James Clerk Maxwell. Entretanto temos que ver bundas subindo e descendo constantemente.

    Dar dinheiro a alguém como Maxwell poderia ter parecido o encorajamento mais absurdo da ciência… “Pôxa, apenas pela curiosidade!?”, perguntariam alguns. Maxwell não estava pensando no rádio, televisão ou radar quando rabiscou as equações fundamentais do eletromagnetismo; Newton nem sonhava em vôos espaciais ou satélites de comunicações quando compreendeu pela primeira vez o movimento da Lua; Roentgen não cogitava em diagnóstico médico quando investigou uma radiação penetrante tão misteriosa que ele chamou de Raios-X; Curie não pensava na terapia do câncer quando extraiu a duras penas quantidades diminutas de rádio do meio de toneladas de uraninita; Fleming não planejava salvar vidas de milhões com antibióticos quando observou um círculo sem bactérias aos redor de uma formação de mofo; Watson e Crick não imaginavam a cura de doenças genéticas quando tentavam decifrar a difratometria dos raios-x do DNA; Rownland e Molina não planejavam implicar os CFCs na diminuição da camada de ozônio quando começaram a estudar o papel dos halogênios na fotoquímica estratosférica.

    Ao contrário do que se imagina a pesquisa fundamental, tem sim uma grande importância para a sociedade. Essas descobertas e tantas outras que honram e caracterizam o nosso tempo, e a algumas das quais devemos nossas vidas, foram feitas em última análise por cientistas que tiveram a oportunidade de explorar o que, em sua opinião, eram curiosidades, meras questões básicas na natureza que em nada contribuem para a sociedade. Hoje vemos o Japão como exemplo de aplicação da ciência em prol da humanidade, mas elas são aplicações do que? A pesquisa fundamental, a pesquisa no coração da natureza, movida pela curiosidade, é o meio de adquirirmos o novo conhecimento que passa então a ser aplicado. Para o senhor, Sr. Nepomuceno, a pesquisa fundamental tem um amplo espaço no meio científico, eu vos digo que muito menos do que deveria.

    Mas como disse, concordamos em uma coisa. Falta dentro do meio científico uma forma de divulgar junto à sociedade seu trabalho. E nisso percebo uma falha dos próprios cientistas que muitas vezes atarefados e preocupados em divulgar junto aos seus colegas seus trabalhos para que esses se tornem bases para trabalhos futuros, se esquecem de mostrar para quem está fora tais trabalhos. Numa conjuntura onde a sociedade e os cientistas conseguissem se comunicar, provavelmente o pesquisador do Ronco do Boi não diria, “porque eu estou a fim”, mas sim “quero ver se acho alguma coisa interessante que podemos aproveitar!”

    Obrigado pelo espaço!

  3. Fabiano de Andrade · abril 28, 2009

    Me esqueci de faalr sobre a “burrocratização” ciência. Enfatizo que isso apenas vem a dificultar mais ainda o seu âmago, ou seja a pesquisa fundamental.

    Novamente, obrigado!

  4. Fabiano de Andrade · abril 28, 2009

    Me esqueci de falar sobre a “burrocratização” ciência. Enfatizo que isso apenas vem a dificultar mais ainda o seu âmago, ou seja a pesquisa fundamental.

    Novamente, obrigado!

  5. Críssia · maio 8, 2009

    Fabiano, é claro que é essencial para a pesquisa a curiosidade e o despertar para o novo.

    Seus argumentos foram bem colocados, ao expor os vários exemplos que temos em nossa história.

    Contudo, essa “cobrança”, que vc mesmo citou, principalmente para se publicar faz com quem pesquisas tenham sido feitas apenas para gerar artigos. Porque quanto mais artigo se tem, mais nomeado vai se tornando o pesquisador, e vai subindo na escala de pontuação, e consequentemente, aumenta a chance de financiamento para futuros projetos.

    Há sim, infelizmente, principalmente no Brasil, uma vaidade de se dizer “pesquisador”, como se fosse um sacrilégio pensar vincular os projetos desenvolvidos a patentes ou a aplicações comerciais, como se fosse “desvirtuar” a arte da ciência.

    A importância do pesquisador é tanta, que vemos grandes empresas como a Fiat criar um laboratório dentro do Cefet-MG para os projetos de engenharia, assim como tantas outras empresas se vincularem às Universidades, justamente pelos benefícios que ambas ganham. É essa a idéia que se deve proliferar: o trabalho em conjunto.

    É claro que assim como estes pesquisadores mais voltados para a aplicação, normatização ou controle são importantes para a sociedade, os “pesquisadores de base”, que são aqueles que são os investigativos na área de criação, descobertas, curiosidades e inovações também, já que possibilitam que a sociedade avance, e que se torne realidade o muito que já se viu em ficção científica.

    Certa vez um professor foi bem perspicaz ao nos instigar a pensar o porquê que na Grécia antiga os “pensadores” tinham tantas habilidades, e porque eles tem tanta importância pra nós. Então percebemos que havia o “parar” para pensar, criar, pesquisar que infelizmente, no imediatismo, nas correrias do dia-a-dia e no excesso de informações e atividades que nos são acumuladas não fazemos. Fica complicado parar para ouvir nossos devaneios, para prestar a atenção numa maçã caindo ou na formação de um mofo. Eis a importância dos que ainda se atentam e nos revelam o que não paramos para pensar e pesquisar.

    Por fim, gostaria muito de enfatizar a importância da sociedade mudar sua visão paternalista e fechada. Não há um favor do Governo para os que querem continuar ampliando seus estudos. É desmotivante os valores das bolsas, sem benefício algum. Profissionais formados, com uma vida adulta para se manter, vivendo de bolsas, como se fossem eternos estagiários, com a diferença, que nas empresas privadas, o estágio tem tempo demilitado para logo ser contratado com seus devidos direito. Já para os bolsistas pesquisadores, só vêem suas vidas mudarem para condições mais dignas quando se abre vagas de concurso.

    Só segue a vida acadêmica e de pesquisador quem ama o que faz. Porque é muito mais atrativo e valorizado o trabalho em empresas privadas.

    Se essa mentalidade não mudar, não teremos tantos Einstens e Madames Curies, principalmente com as exigências crescentes da vida moderna.

    O pesquisador é um profissional competente e deve ser valorizado e respeitado, como qualquer outro profissional, e como todos nós, devemos trabalhar nossa humildade e bom senso, e ampliarmos nossas versatilidades, curiosidades e aptidões.

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