Recessões desafiam a imaginação inovadora

A História mostra por que produtos revolucionários podem surgir nos períodos mais recessivos da economia.

Fonte: ÉPOCA Negócio – 23/01/2009

As perspectivas sombrias das economias mais ricas do planeta não interromperão, necessariamente, a prolífica onda inovadora iniciada nos últimos anos, representada por tecnologias como o Google, o MP3 e o iPhone. Mesmo nos períodos recessivos mais intensos é possível desenvolver produtos capazes de revolucionar o mercado. É o que revela um estudo do economista americano Tom Nicholas, professor de história dos negócios da Harvard Business School. Nele, Nicholas relata o sucesso de companhias que apostaram em inovação durante a Grande Depressão – período de retração econômica que teve início em 1929, com a quebra da Bolsa de Nova York, e terminou depois da deflagração da Segunda Guerra Mundial.

Na maior crise econômica do século passado, a maioria das empresas americanas reduziu seus investimentos em pesquisa – o número de pedidos de patente caiu no início dos anos 30 em relação à década anterior. Entre as companhias que nadaram contra a corrente e mantiveram sua aposta em inovação estava a DuPont. No início de 1930, seus cientistas criaram o neopreno, uma borracha sintética usada numa grande variedade de produtos, como solas de sapato, roupas de mergulho e isolantes elétricos. Apesar de ter assistido ao recuo de suas vendas em até 15% naquele ano, a DuPont aumentou seus investimentos em pesquisa para conseguir desenvolver a nova tecnologia comercialmente. Sete anos depois o neopreno chegou ao mercado. Em 1939, todos os carros e aviões fabricados nos Estados Unidos tinham componentes com neopreno.

A corporação americana comportou-se da mesma forma em relação ao nylon, descoberto em 1934. Investiu pesadamente no seu desenvolvimento e conseguiu lançá-lo quatro anos depois, com enorme sucesso.

Outra companhia que manteve investimentos elevados em inovação foi a RCA, que havia sido duramente atingida pela quebra da Bolsa de Nova York. Líder na produção de aparelhos de rádio, a RCA começou a direcionar suas pesquisas para a televisão, que estava então sendo desenvolvida em diferentes pontos do planeta. Em 1938, apresentou o seu primeiro modelo e, assim que a Segunda Grande Guerra terminou, passou a comercializar seus aparelhos de TV.

Qual o significado desses exemplos? Para começar, afirma o pesquisador, eles não bastam para que possamos concluir que os investimentos em inovação, durante períodos recessivos, são um bom negócio para qualquer tipo de empresa. “Mas, se analisarmos o desenvolvimento de patentes e a experiência de sucesso dos inovadores, podemos dizer pelo menos que algumas companhias devem continuar investindo em inovação mesmo durante períodos de turbulência econômica”, diz Nicholas. “Especialmente nos casos em que a tecnologia leva anos, desde sua criação, para chegar ao mercado”, afirma. Segundo o economista americano, as empresas que adiam seus investimentos correm o risco de perder oportunidades de crescimento no momento em que a economia começa a recuperar seu vigor.

Nicholas acredita também que os períodos de retração econômica não inviabilizam a criação de novos negócios. Para exemplificar, cita duas empresas inovadoras fundadas durante a crise dos anos 30. Uma é a Polaroid , criada pelo empresário Edwin Land em 1937. Onze anos depois, a empresa lançou a primeira câmera instantânea de fotografia. A outra é a Hewlett-Packard, que começou a funcionar numa garagem, em 1939, por iniciativa de Bill Hewlett e David Packard, que haviam se conhecido na Stanford University. O primeiro produto da nova empresa foi um oscilador de som, um equipamento requisitado para testes de som pelos estúdios de cinema da época. Entre seus primeiros clientes estava o Walt Disney Studios, que usou o equipamento durante a produção do filme de animação Fantasia, um clássico lançado em 1940.

Nicholas acredita que a experiência dos anos 30 ilustra o pensamento do economista tcheco Joseph Schumpeter, célebre por descrever como as inovações transformam o capitalismo e o fazem avançar – movimento que batizou de “destruição criativa”. Schumpeter apontava as consequências positivas dos períodos recessivos. Entre elas, a destruição das empresas pouco eficientes, a realocação de capital de setores condenados para novas indústrias e a transferência dos profissionais qualificados para os empregadores mais capacitados a usarem de sua competência. “Para as companhias que têm dinheiro e ideias, a história mostra que os períodos de retração econômica podem oferecer enormes oportunidades estratégicas”, afirma Nicholas.

  • Polaroid – Câmera de fotografia instantânea lançada no mercado em 1948 pela empresa americana de mesmo nome. No início de 2008, a companhia anunciou o fim da produção do equipamento, que perdeu mercado para as câmeras digitais.

Link: ÉPOCA Negócio

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