O papel da Inteligência Coletiva na Gestão do Conhecimento

Por Marcelo Yamada

A associação do tema “Inteligência Coletiva” à Gestão do Conhecimento parece inevitável.

Fonte: WikiEducação

Os exemplos clássicos de uso da inteligência coletiva mostram iniciativas em que pessoas aplicam seu conhecimento pessoal individualmente na produção de algum resultado comum – um software, um artigo, uma resposta a uma problema. É o caso das enciclopédias escritas na internet por milhares de autores (como a Wikipedia), dos programadores que desenvolvem voluntariamente segmentos de softwares complexos (como o sistema operacional Linux) em troca de aparentemente nada, ou dos cientistas que resolvem dilemas da humanidade na garagem de suas casas após aceitarem encomendas pontuais dentro de suas especialidades em algum site de intermediação como o Innocentive. Em alguns casos o trabalho conjunto ocorre pulverizadamente e de forma voluntária; em outros, com um gerenciamento formal através de uma estrutura de liderança e um processo de divisão de trabalho.

Uma grande quantidade de estudos e trabalhos têm sido produzidos no esforço de entender e de aperfeiçoar o funcionamento das iniciativas de inteligência coletiva.

É o caso da política de licenciamento de software GPL (GNU General Public License – http://www.gnu.org/licenses/licenses.html#GPL), que determina entre outras coisas os deveres daqueles que se beneficiam do software de código-livre, evitando a mercantilização do trabalho voluntário alheio, e a política de licenciamento Creative Commons (http://www.creativecommons.org.br), que segue os mesmos ideais mas pode ser aplicado a qualquer produto de natureza intelectual – inclusive a um artigo como este.

Somam-se a esses desenvolvimentos recentes as discussões mais antigas que buscam compreender a eficiência e a eficácia dos esforços coletivos, como o estudo da “inteligência de enxame” (que estuda o comportamento dos insetos que vivem em sociedades complexas contando com as ações individuais de milhões de participantes que não têm nenhuma visão do todo e sim apenas uma determinação impressionante para cumprir a pequena parte do trabalho que lhe cabe desde que nasceu, ainda assim produzindo no conjunto um resultado fenomenal como a construção de uma colméia ou a seleção do melhor campo de flores) e os debates na administração de recursos humanos a respeito da analogia das equipes de trabalho corporativas com as orquestras (rigorosamente comandadas pelos maestros) ou com as bandas de jazz (compostas de especialistas autônomos mas com grande cumplicidade na produção dos resultados).

Mas nenhum desses trabalhos sobre inteligência coletiva é suficiente para caracterizar sua contribuição à gestão do conhecimento corporativo – apenas ajudam a entender e aprimorar as práticas do trabalho coletivo. E projetos que fazem uso da inteligência coletiva podem existir sem que haja uma gestão do conhecimento propriamente dita. Podem existir com o propósito puro e simples de se produzir algum resultado, sem preocupação com o conhecimento utilizado ou produzido, dispensando esforços de gerenciamento que possam ser chamados de “gestão do conhecimento”.

Vamos relembrar o que é a gestão do conhecimento. Muitas definições para a GC já foram (e continuam sendo) escritas, então adotemos aquela disponível na Wikipedia em inglês (http://en.wikipedia.org/wiki/Knowledge_management): “Knowledge Management (KM) comprises a range of practices used in an organisation to identify, create, represent, distribute and enable adoption of insights and experiences. Such insights and experiences comprise knowledge, either embodied in individuals or embedded in organisational processes or practice.” Uma interpretação de forma curta seria: a GC compreende um conjunto de práticas organizacionais para gerenciar o conhecimento existente nas pessoas, processos e práticas corporativas. (Não vamos discutir aqui a existência de conhecimento fora das pessoas, que faz parte dessa definição e gera muita discussão.)

As iniciativas de inteligência coletiva, ademais, não têm o propósito explícito de gerar aprendizado, mas sim o de gerar produtos (a não ser que o produto planejado seja o aprendizado dos participantes). Em geral, o aprendizado é um sub-produto do processo, por observacão entre os indivíduos ou pela capacitacão prévia que seja pré-requisito para o andamento dos trabalhos. Esse é, aliás, uma dos atrativos das iniciativas que fazem uso da inteligência coletiva – a produção de resultados sem passar pela curva de aprendizado .

Não há, então, relação entre os projetos de inteligência coletiva e a gestão do conhecimento? A utilização da inteligência coletiva exige outro processo de gestão, independente?

Não. O gerenciamento de iniciativas de inteligência coletiva se traduz em atividades de orquestração de conhecimentos para a producão de algum resultado, seja conhecimento ou não, que de qualquer forma gerará conhecimento dentro das pessoas, em novos processos ou embutido nos produtos, ou permitirá a formação de uma rede de relacionamentos capaz de executar pela empresa trabalhos de alta exigência de know-how.

Ou seja: por meio de projetos de orquestração da inteligência coletiva, a empresa promove a criação de conhecimento (como produto ou sub-produto) e se apropria do mesmo, enriquecendo seu capital intelectual (um conceito concebido por Thomas Stewart que merece outro artigo). Esse é o papel da inteligência coletiva na gestão do conhecimento.

Don Tapscott, em seu livro “Wikinomics: How Mass Collaboration Changes Everything”, identificou sete modelos de negócios para a viabilização e a exploração de iniciativas de inteligência coletiva. Os chamou de prioneiros do peering, ideágoras, prosumers, novos Alexandrinos, plataformas para participação, chão de fábrica global e local de trabalho wiki.

E apenas para encerrar: onde se enquadra a tal da Web 2.0? São apenas ferramentas tecnológicas. Se os grupos de trabalho as abraçarem, promoverão o surgimento de novos processos colaborativos nas organizações. Caso contrário, nada ocorrerá.

Link: WikiEducação

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